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Territórios e tramas

“O artista é inventor de lugares. Ele dá carne a espaços improváveis e impossíveis ou impensáveis: aporias, fábulas tópicas”
G. Didi Huberman

Retorno da reciclagem. Reversibilidade do objeto. Borracha - matéria bruta que mostra sua potência, e dos mundos imaginários devém carne para ser tocada.

Borracha preta - capital de vida latente. Impressão de opacidade, espessura, peso. Fardo que se torna leve e frágil pelas mãos de Vânia Barbosa. Potência dos objetos: cheiro e densidade.

Território de interseções: o preto se deixa atravessar pelo branco da parede. Os objetos mudam de dimensão e os sentidos se confundem. O lugar nos olha. Tranças, cordas, fios ou Bichos, Cogumelos, Ninhos que se transformam nas paredes ou no chão. Inquietante estranheza. Do mais pesado fardo sobre o chão a mais singela leveza nas paredes.

Peso dos enigmas da vida e da morte. Viagem fantasmática das tramas. Enredando narrativas dos objetos. Palavras, vozes do mundo que a artista tenta ler no corte arqueológico que realiza.

Representação denegada, restam fios, cordas, redes, nesse teatro do mundo. A borracha se presta como matéria à intuição das dobras da alma. A exterioridade infinita de uma matéria formada de dobras na trama labiríntica.

Inflexão da borracha, inflexão do corpo da artista que trabalha a matéria bruta. A matéria sem máscaras. Seu trabalho é o de dobrar e desdobrar com suas mãos as possibilidades da matéria reciclada e dar formas inusitadas a ela, assim como as sombras criadas ao serem expostas. Espaços de sombras que o objeto criado pode, em seu efeito, ainda fazer acontecer. Como o efeito tátil - experimentar o toque na borracha, na obra criada. Dureza que devém maciez: Prière de toucher duchampiano.

(Vera Casa Nova)