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A ALMA DA BORRACHA NO CASULO DO SONHO

Um lugar que aguça os sentidos, agrupando formas, gestos e, sobretudo, cheiros. Uma inebriante e acolhedora atmosfera, onde reina a borracha, nas paredes, no chão, engrandecendo, tomando conta do ambiente. São muitas as portas de entrada ao atelier da artista plástica mineira Vânia Barbosa.

A primeira entrada é literal, ao chegar ao portão principal, adentrar ao recinto, ser recebida pela absoluta multiplicidade sígnica que envolve as inúmeras faces de sua obra, pensada, articulada, coesa, nunca apenas fruto do acaso, mas regida pela agilidade técnica de Vânia, postura sempre sensível, articulando o acaso em minudências plásticas, pensando o futuro ao moldar o presente.

Sem pressa, no ritmo zen, absolutamente necessário à reflexão sobre os dias e as coisas e, é claro, o humano a habitar esta dualidade. Viver, experimentar, fazer são verbos conjugados com precisão no vocabulário da artista. E o atelier, nas entranhas do Jardim Canadá, o cheiro de montanhas circundantes, o silêncio ordeiro e lacunar, exigindo a atenção, a presteza e as garras de Vânia Barbosa, domando o acirrado exercício de criar. Regido pela alma da borracha naquele casulo de sonho, colméia e centelha.

(Alécio Cunha – setembro/2005)

OS DIÁLOGOS DA BORRACHA

Era uma vez uma menina do interior de Minas. Adorava contemplar a natureza e extrair dos objetos todo o seu poder de sedução, incluindo aqueles rejeitados pelo homem, esquecidos em depósitos, jogados ao relento. Vem dessa época uma paixão absurdamente bela pela borracha, com o poder transformador desta matéria tão especial, capaz de absorver e neutralizar todos os cheiros a sua volta , tornando-se sempre o pólo central de atenção, uma espécie de ponto nevrálgico do mundo

De repente, a borracha suga e expande as energias de seu derredor. Desse convívio simultaneamente matérico e espiritual, Vânia herda a alma da borracha, a capacidade de transparência, a elasticidade diante do todo, cosmos e caos. Desde os tempos de estudante na Escola Guignard, em Belo Horizonte, a artista sempre gostou de misturar as técnicas, apostando na comunhão de vários tipos de pigmento e papel, como em desenhos ela apostava em ranhuras e texturas, queimas e rasgos, frutos da fisicalidade do construir e destruir.

Tais desenhos, independentemente do seu volume e altura, podiam ser vislumbrados como deliciosas esfinges pictóricas, causando nos espectadores o desejo supremo do toque, do tato, de reconhecer através das mãos o que as pálpebras e pupilas apenas sugeriam. Havia sempre aquela vontade de rastrear com a palma da mão a superfície da tela.

Mesma sensação ocorre agora quando entra em cena a borracha, seja no estado bruto, deitada de bruços no chão do atelier com sua ébana viscosidade. Instigante é poder perceber como Vânia explora a natureza dialógica da borracha. Ao unir o material à palavra, cria pequenas instalações, cinematógrafo de letras, o poema do látex. Neste instante, surge a dúvida: quem se inscreve em quem? A borracha ou a letra? Na paixão do vice-versa, tanto faz. O que vale a pena é o encontro visceral entre um e outro, memória da matéria.

(Alécio Cunha)